Pular para o conteúdo principal

FÁBRICA DE NUVENS

Foto: Elenize Dezgenisk

Texto: Daniel Schenker

Fábrica de Nuvens transita entre o evidente e o nebuloso. Daniel Toledo (acumulando as funções de ator, diretor e autor do texto) assume uma proposta de cena – relacionada, sobretudo, à construção de uma atmosfera asséptica, sublinhada por luminosidade fria. A “questão” temática, em contrapartida, demora a ultrapassar a esfera da insinuação (sem que isto se constitua como falha) até direcionar para a monotonia da vida dos personagens, funcionários de uma fábrica de nuvens(!), que provavelmente dão mais importância ao que dizem ou fazem para disfarçar um cotidiano tão pouco estimulante. “Eu queria virar nuvem. Morrer por um tempo. Depois voltar, achando tudo mais novo, mais doce”, assinala uma das personagens em trecho que inegavelmente sintetiza a fala do autor.

Procedimentos de direção e atuação injetam frescor em Fábrica de Nuvens, trabalho do Núcleo Taz. Apesar de incorrer numa marcação frontal, recurso reincidente nas cenas da Mostra, aqui os atores também assistem à plateia, recortada em focos diversos de luz. E parece haver uma preocupação em buscar uma conexão entre fala e ação, a exemplo da passagem em que a atriz Regina Ganz diz coisas prosaicas enquanto manipula, de modo mecânico, blocos de papel.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ronca o rancor

Princesa Ricardo (Marinelli) critica e escarnece da onda reacionária  }  Elenize Dezgeniski Provérbios, chavões, lugares-comuns, tanto faz, eles abundam na figura da Princesa Ricardo em “Das Tripas Coração”, arremedo de ópera-bufa em que o performer Ricardo Marinelli captura pela unha a narrativa reacionária que o Brasil nunca viu tão descarada. E dela escarnece apoiada nos vícios de linguagem. Funciona muito bem a analogia dos excessos diante da realidade transbordante, da virulência com que as vozes conservadoras perderam os pudores na desqualificação do diferente. A cena desossa o senso comum e abre outras portas para mostrar que os significados (das coisas, das vidas, das palavras) sofrem um desgaste sem precedentes no atual quadro sociopolítico. Texto-depoimento e ações podem soar literais ou desarmônicas, permitindo ao espectador um exercício permanente de verificar os anacronismos entre fala e expressão corporal que chamam ao pensamento crítico. Para essa figura...

Zona erógena e cócegas

Cena  parte de texto de catalão e é dirigida por André Carreira }  Elenize Dezgeniski Em “Romeu e Julieta”, o frei Lourenço afirma que “Esses prazeres violentos têm finais violentos/ E, em seu triunfo, morrem como o fogo e a pólvora./ Que se consomem quando se beijam”. Para além do fundo histórico e social da tragédia, a impossibilidade da consumação do amor juvenil em Shakespeare talvez nos diga mais sobre a sabotagem dos desejos na contemporaneidade. Um prolongado beijo entre personagens que se dizem irmãos, ele e ela, é um dos múltiplos ruídos propositalmente desestabilizadores em “La Belle Merde”, do Grupo Teatral (E)xperiência Subterrânea, de Florianópolis. A objetividade científica da forma expositiva vem associada à apresentação de seminário ou conferência que aparenta se passar em sala de convenção ou sala de aula, ainda que sugira a neutralidade de um ambiente com uma cadeira e uma mesa discretas, além da luz invariável. Os atores Lara Matos, Lucas Heymanns e Mar...

Sem pena

O performer Zé Reis na provocadora cena 'Pós-Frango'  }  Elenize Dezgeniski A objetificação da mulher é tão brutal na sociedade machista que quando ocorre o inverso – o corpo masculino tratado como carne na vitrine –, poucos se dão conta. A performance Pós-frango faz uma articulação estética e filosoficamente bem urdida dessa espécie de contradição. O ator e dançarino Zé Reis, da companhia brasiliense Errante, perpassa imagens figurativas e disruptivas. Pelado, ele alude a estereótipos e convenções a partir de um corpo escultórico, evidenciando músculos que servem ao gogo boy ou ao fisiculturismo. E à arte, claro. Como as aparências enganam, mas, enfim, aparecem – já dizia Leminski –, os desfazimentos dessa plasticidade fútil por volumes e relevos outros tornam as suspensões poeticamente forjadas nesse mesmo corpo sobreposições maleáveis e sofisticadas desse mesmo material capturado do registro grosso da paisagem urbana. Estendido de uma ponta à outra na dianteira do pal...